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  • De volta para o básico – ou How to get away with murder

    De volta para o básico – ou How to get away with murder

     

    A rigor, para mim, foi um choque: será que encontrei “A” empresa referência em termos de organização e limpeza, “A” referência 5S.

    Imaginem a cena: entrar em uma fábrica ainda desconhecida, metal mecânica, sem aviso prévio e deparar-se com uma planta – sim, no chão da operação – muito limpa. Normalmente, empresas do setor metal-mecânico não são referência em termos de organização e limpeza; em geral, encontro sujeira, mesmo.

    Mas, nesta planta, com linhas de transporte automáticas movendo os produtos entre as estações de trabalho, não se via sujeira, nenhum óleo no chão. E, pasmem, não havia nem os típicos contentores de óleo em torno dos equipamentos. Metais ou restos de soldas, nada. E, claro, nenhuma porca ou parafuso no chão.

    Tipicamente, em um ambiente com gestão amparada pelo 5S, a liderança e o time de operação o utilizam para que os pontos fora da curva, os problemas apareçam mais facilmente. Isto é, a partir de referências, padrões, claros e objetivos, uma anomalia salta aos olhos e de imediato percebemos que devemos procurar pela causa e resolver o respectivo problema.

    Sob uma visão 5S, podemos desenvolver o raciocínio de que “devemos constantemente reparar os pequenos detalhes para que os grandes se corrijam por si”.

    Em meu entender, o 5S é “A” base para quaisquer outras iniciativas de melhorias; pois a partir da disciplina e habilidades desenvolvidas com o 5S, o time de operação – e por conseguinte, a organização – mostra que é capaz de vôos mais altos; ou seja, têm os requisitos mínimos para que qualquer outro programa de melhoria sistêmica alcance sucesso.

    Na minha caminhada ao longo da fábrica, com todos seus cheiros e luzes, deparei-me com uma cena comum: um conjunto semimontado caiu de seu local de trabalho e sujou de óleo e graxa o chão. Mas, surpresa, em um piscar de olhos, um funcionário da limpeza – sim, não era um operador – apareceu e imediatamente limpou os restos mortais do evento. Invejável OTED (one touch exchange of die)… ok, uma coisa, uma coisa, outra coisa, outra coisa.

    Em menos de dois minutos, o funcionário da limpeza tinha limpado tudo, devolvido ao operador da área os restos mortais do conjunto e… fim. Tudo voltava à normalidade.

    Ah, agora tinha entendido. Ninguém viu, ninguém anotou nada, ninguém verificou o(s) por quê(s). Nada, realmente nada, tinha sobrado para se verificar eventuais causas, verificar como evitar que novas peças caíssem novamente.

    O incrível crime perfeito mostrava que a empresa era excelente em limpeza, arrumação, mas não 5S.

    Um programa 5S tipicamente define regras para o que pertence onde, para que ferramentas e equipamentos estejam sempre prontos para uso, visíveis e, portanto, estejam inspecionáveis. Eventuais causas raízes da desorganização e ou sujeiras sejam investigadas e eliminadas. A limpeza e a arrumação são resultados e não objetivo fim do programa.

    Supondo uma situação com 5S vigente e de sucesso, perceberia-se gotas de óleo se formando em juntas ou mangueiras antes de ocorrer um vazamento. Com isto, a manutenção seria chamada e eliminaria a causa do problema. Em um programa iniciante ou em desenvolvimento, o vazamento teria alcançado o chão e o time buscaria a causa raiz para iniciar ações corretivas.

    Um excelente programa de limpeza limpará o óleo e eliminará qualquer vestígio de problema visível, até que o reservatório de óleo seque e a máquina pare de funcionar forçosamente.

    Vamos lá! Se não pudermos ver e corrigir os pequenos problemas, qualquer fábrica terá vários grandes problemas. Sem informação e análise, não teremos como encontrar quanto e onde há perdas, vazamentos, quedas e outros.

    Nesta empresa que visitei, seu programa de limpeza e arrumação era impecável; tanto que eliminava quaisquer oportunidades de o 5S evoluir para um estágio onde a resolução e a prevenção de problemas ocorram rotineiramente. Ou seja, simples e eficiente, como um programa 5S é: de volta para o básico.

  • Seu negócio: você cuida?

    Seu negócio: você cuida?

     

    Carlos é operador em sua empresa há mais de 8 anos. Preocupado com a disposição das ferramentas na sua área de usinagem, montou uma estante onde as ferramentas, brocas, estavam facilmente identificáveis para todos. Com isto, todos pararam de atrapalhar os outros em suas atividades perguntando pela broca de 1 e 1.1/5”.

    João é operador há mais de 8 anos da fatiadeira na mesma empresa. Preocupado com a qualidade que os clientes recebiam, garantia nunca receberem menos do que pedido. Porém, ao analisar os dados, percebemos que esta preocupação levava ao desperdício de quase um quarto de milhão de reais por ano. Ao ser confrontado com os dados de desperdício, João garantiu um ótimo insight de como reduzir – quase eliminar – este desperdício. Em menos de meia hora nos mostrou como poderia fazê-lo e como resultado movimenta hoje quase 15% menos placas – pesando 200-400 kilos cada uma.

    Alex, é um novo funcionário. Percebeu que a necessidade de dar destinação rápida e adequada a materiais de descarte poderia garantir os recursos para a manutenção de um bom café da manhã para todos os colegas da empresa (separando e vendendo os materiais recicláveis).

    Nós estamos auxiliando esta empresa ao longo de sua jornada e, dentre as frentes de ação, começamos a instigar as pessoas sobre como arrumar aquilo que as incomoda, consertar o que precisa ser consertado. Não entramos com um monte de aulas e treinamentos, mas com algumas ações pontuais de melhorias e um simples workshop para nivelar as visões entre todos.

    Definitivamente não estamos alterando drasticamente os negócios, mas tentando mostrar às pessoas que elas podem melhorar a própria situação, tornar as coisas mais fáceis para si mesmas. Em geral, nos esquecemos que nos processos de implementação de uma cultura de melhoria contínua a primeira ação é mostrar às pessoas (fazê-las saber!) que elas têm permissão para melhorar as coisas!

    João, Carlos e Alex não são pessoas de muitas palavras, não eram dos que mais participavam das discussões no workshop, nem nas sessões no chão de fábrica. Até imaginei isto como sinal de resistência às possíveis futuras mudanças. Mas, com suas participações, instigaram outros a também reagir e iniciar mudanças em suas áreas.

    Líderes e consultores, eu incluído, geralmente expressam com entusiasmo os benefícios que a cultura dos kaizens e 5S traz às organizações: redução dos tempos de atravessamento, maior qualidade, redução de custos, aumento no lucro, etc. Mas, tão ou mais importante, é o fato de frequentemente perdermos de vista os benefícios do lado humano destas iniciativas, do lado mais próximo das pessoas que executam as organizações, o lado que as fazem existir.

    Com o 5S, a visão é obter melhorias no ambiente de trabalho em geral, mais limpo, acessível, organizado, de melhor visual. Com os kaizens nós evoluímos como fazemos, tornamos as coisas mais fáceis para nós e os colegas – utilizamos de nossa inspiração, imaginação, criatividade, inovação. Estes benefícios, a rigor, são muito mais motivadores e inspiradores nas operações que o aumento no resultado da empresa – que resultará como consequência destas ações.

    Assim, fica fácil perceber porque Shigeo Shingo colocou suas quatro metas de melhorias nesta ordem: mais fácil, melhor, mais rápido e mais barato.

    As iniciativas de Carlos, João e Alex foram passos na direção da construção da melhoria contínua. Mas, tão ou mais importante, é o fato de mostrarem que eles se importam, cuidam de seus negócios.

     

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