Tag: Lean coach

  • A liderança, a formação de times e a competitividade organizacional

    A liderança, a formação de times e a competitividade organizacional

    Assunto espinhoso dado a diversidade de receitas disponíveis. Já digitou um “how to” no oráculo, digo Google?

    Mas saindo da questão de como formar bons times, andarei pelos consensos de “how to build an excellent team”.

    Criar e formar um bom time de profissionais significa permitir olhar para o amanhã e saber que haverá lastro para sua competitividade futura. Ademais, significa que a organização tem em quem confiar as atividades, tarefas, hoje e no futuro. Assim, as empresas aptas à competitividade e aquelas que estão transformando sua competitividade têm em seus líderes, em todos os níveis, papéis fundamentais.

    Vá veja por si próprio. Em minhas caminhadas por diferentes empresas percebo um comportamento fundamental e comum entre os líderes de grandes times (grandes no sentido de qualidade): é difícil encontrá-los em suas salas por um motivo básico, eles investem boa parte de suas agendas com seus times.  Criar uma companhia enxuta, competitiva, requer que as lideranças invistam seu tempo e criatividade no aperfeiçoamento de seus times – in loco. Ainda não fiz uma correlação estatística fundamentada, mas arrisco-me a afirmar que os melhores investem a maior parte de seus tempos onde o trabalho acontece. Notadamente, ensinando-os a como melhor realizar seus trabalhos por si próprios e a como solucionar problemas. Mais, as lideranças do topo ao se comportarem assim, induzem da melhor forma possível (pelo método ‘faça o que faço’!) a replicação deste comportamento ao longo da estrutura de suas organizações. E isto é uma consideração já testada, como Geoff Colvin cita em seu livro “Talent is overrated”, de 2008. Um benefício percebido por estar junto, indo ao local onde as coisas acontecem, é que os muros de privilégios que separam os trabalhadores dos executivos são diminuídos, quando não destruídos.

    Esta característica de ‘estar junto’ vem acompanhada de mais dois pilares, também incansavelmente comuns, participação e respeito. Ou seja, há um tripé em estar junto, participar e respeitar. Assim, como sobre um banco de três pernas, há um delicado equilíbrio que depende de como nos comportamos.

    Quiz de meio do texto: você sabe qual a vantagem que um banco de três pernas tem sobre um de quatro?    ;- )

    Uma coisa é ter um programa de formação organizacional onde tipicamente se prevê uma vez na semana, ou mensalmente, algumas atividades, capitaneadas pelo RH. Outra é verificar o comportamento regular da liderança, diariamente. Obviamente o RH tem de fazer parte, na base, e atuar como suporte ao todo. Mas é no desempenho do papel da liderança onde se vê as diferenças entre as companhias mais e menos competitivas.

    Assim, participar no desenvolvimento dos times diretamente é coisa de líder, dos bons. Pois sabendo e aprendendo como e com o quê os profissionais de linha de frente atuam no dia-a-dia torna a tarefa de orientar, formar, treinar, mais fácil e simples. Além de se permitir uma visão exata daquilo que realmente acontece nas batalhas diárias nas organizações. E participar não significa colocar a mão na massa para fazer no lugar ou junto, mas sim estar presente, saber o que acontece, os desafios vividos, de modo que os times percebem o compromisso da liderança com eles.

    Como terceiro elemento, o respeito. Que não entendo como tratar bem, ter ou desenvolver empatia pelas pessoas. Mas, principalmente, mostrar respeito pelo aprendizado das pessoas, em como elas aprendem, auxiliá-las no processo de aprendizado, de evolução. Participar do entendimento das metas, das condições alvo, do entendimento de qual é a situação atual e os eventuais obstáculos que separam esta do alvo. Do entendimento do que a pessoa está fazendo para resolver o desvio, dos passos que ela pretende dar para continuar o processo de aprendizado e os resultados almejados. E, finalmente, ajudar as pessoas a entenderem o que aprenderam com estes passos.

    Como pano de fundo, posso dividir que o custo cognitivo do desrespeito é alto para a pessoa. Em consequência, o seu desempenho como membro de times e em suas funções é afetado. E para suportar esta afirmação a partir de minha visão, nada como a ciência. Como mostram os estudos conduzido na Universidade da Flórida e relatado por Christine Porath e Christine Pearson, no texto “The price of incivility”, de 2013, e os estudos conduzidos pelo professor Amir Erez na Florida, em 2008, e em Tel Aviv, em 2015. No trabalho os resultados mostram que as pessoas que não são tratadas com respeito geram menos ideias e suas capacidades de resolução de problemas caem quando comparadas com grupos de referência. Adicionalmente, aqueles tratados com desrespeito, diminuem intencionalmente seus esforços e a qualidade de seu trabalho, além de repassarem este desrespeito aos clientes.

    Independentemente do segmento de atuação e do tamanho de sua organização: como vê este tripé – faz sentido para você?

    O caminho para a competitividade é longo, lento, mas vale começar a percorrê-lo a partir de hoje. Hoje vimos que podemos intencionalmente mudar alguns pilares da competitividade.

    Boa jornada!

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    Informação sobre imagem do texto: obtida em Pinterest, de Sandria Pilon: Birds Free Wallpapers, many wild geese flying together.

     

  • Estratégia de virar o jogo: além do lean. Um caso ao longo de cinco anos.

    Estratégia de virar o jogo: além do lean. Um caso ao longo de cinco anos.

    Nada como o olhar da história, mesmo que alguns poucos anos, para podermos enriquecer o entendimento de um cenário.

    A literatura e o consenso de mercado apontam que a filosofia enxuta, o ‘lean’, tal qual preconizado pela Toyota, é o caminho mais certo e eficiente para evoluir a competitividade de uma organização. Requer compromisso, constância de propósitos e rotina, como na busca por condicionamento físico ou esportivo.

    A questão é como encarar o desafio de implementação da filosofia e a gestão de mudança a serem realizadas, vencidas, em uma organização. Quais compromissos assumir, propósitos estabelecer, rotinas e atividades a criar e manter.

    Há pouco tempo, vivi a experiência de conhecer a história recente e os esforços de duas organizações que atuavam no mesmo segmento, de tamanhos relativamente similares no ano inicial de comparação. Uma delas, a referência, eu tive o privilégio de acompanhar ao longo de quase seis anos. A outra, ao longo de dois anos finais nestes seis comparativos.

    Neste período ambas passaram por iniciativas de implementação do lean. Porém, ao final dos seis anos apresentavam desempenhos operacionais e competitividade distintas.

    A primeira, era reconhecida no mercado, por todos os clientes, como ‘a’ referência em termos de velocidade de resposta, qualidade de atendimento e qualidade dos serviços. Seus clientes, por questões de requisitos de segurança do mercado, colocavam seus produtos em mais uma opção de suprimento. Assim, tinham concomitantemente a oferta diária de ambas e de outras também, podendo comparar constantemente com dados e fatos.

    O que era possível verificar a olhos vistos era a abordagem investida quando da decisão de ‘implementação do lean’ e seus conceitos. Numa, a liderança decidiu abraçar os fundamentos de competitividade desde o topo. Assimilou e desdobrou na organização a filosofia e a base para se evoluir os comportamentos, mas notadamente criando as ações e rotinas que permitiram evoluir, mudar a cultura inicial.

    Noutra, da mesma maneira que na primeira, foi convidada uma empresa terceira para suportar a implementação. Foram implementadas novas ferramentas, gerado treinamentos, etc. Após três anos da iniciativa semente era possível verificar que algo havia ficado: o uso de jargões estrangeiros nomeando ferramentas de gestão e ações do time de maneira dispersa, mesmo que com o uso equivocado ou deturpado. Já a disseminação da filosofia, de mudança de comportamentos, não tinha fincado elementos.

    A evolução na primeira referência não foi contínua ao longo dos cinco anos. A rigor, no início, a liderança decidiu por um salto evolutivo que criasse um momento inspirador e revelador da visão que se propunha. Com isto, a meta era criar a pedra angular do antes e depois.

    Tabela antes e depois: processos de 9 para 3, filas de 8 para 2, estoque em processo de 77.000 para 34.000 cartões e lead times menores

    Esta pedra angular motivou o grupo, em especial os times operacionais. O relacionamento interno e com o cliente melhorou, criando um ambiente propício a maior confiança mútua. Dentre outros êxitos, a capacidade de entrega em D-zero (menos de 24h do pedido) subiu 40%, aliviando a pressão por velocidade, o tempo entre receber os pedidos e entregá-los à logística reduziu mais de 50%, dois processos intermediários críticos foram corrigidos de modo a tornarem-se à prova de erros, o esforço total do pessoal havia diminuído a ponto de as horas extras serem reduzidas em 70%.

    Este desempenho foi evoluindo com o tempo, por meio de melhorias sequenciais, em processos e sistemas suporte. A equipe começou aexibir um dínamo diário motivador. Uma série de alterações foram realizadas ao longo dos seis anos, todas contribuindo sinergicamente em uma jornada evolutiva.

    Porém, durante os seis anos, olhando a organização de um ângulo privilegiado, como colaborador externo ao grupo da empresa, uma coisa era notável: o compromisso com a melhoria contínua das pessoas e das operações. Esta era a pedra angular. Sim, o evento de transformação física dos processos e atividades operacionais, treinamentos e alterações de funções iniciais suportaram o começo. Mas o motivador maior foi o estabelecimento da mudança de mindset, pensamento, das lideranças e o desdobramento à organização, como cultura.

    A mudança não ocorreu em um dia, um mês ou trimestre. Ela foi ocorrendo. Ganhando energia a cada etapa, como que ganhassem condicionamento físico aos poucos, cada vez em escala maior. Num dínamo energizador e auto cumulativo. A mudança de mindset permitiu que melhorias incrementais se acumulassem e gerassem ideias inovadoras, mais complexas e evoluídas com o passar do tempo.

    Foi percorrido o caminho oposto à busca por redução de custos – em outras palavras, das dietas organizacionais. Frente ao objetivo de melhor condicionamento a organização se propôs desenvolver hábitos e rotinas que a permitissem alcançar o objetivo, não se curvou ao apelo das dietas. Contrariamente, a organização caminhou em uma jornada onde os objetivos eram ajudar as pessoas, todos, a descobrir como facilitar e melhorar seus trabalhos. Fortalecer a conexão entre todos os funcionários e o cliente. Isso criou a “mudança de estilo de vida” que permite às empresas alcançarem maior competitividade a longo prazo.

    Portanto, ao enfrentar o desafio de criar, construir maior competitividade, opte pelo caminho do retorno longevo, à médio e longo prazos. O caminho enxuto é o caminho, mudando-se os fundamentos que permitem a evolução cultural, este é o trabalho a ser feito.

  • A liderança, o tempo e nossa capacidade de suportar o crescimento de nossos times.

    A liderança, o tempo e nossa capacidade de suportar o crescimento de nossos times.

    Se um grande músico toca uma música magistralmente, mas ninguém ouve… Ele foi realmente bom?

     

    Trata-se de um debate epistemológico – antigo, mais antigo, na verdade, do que a anedota do paradoxo sobre a árvore na floresta. Platão já ponderou sobre isso e alguns outros filósofos por dois milênios depois. O que é beleza? É um fato mensurável (Gottfried Leibniz), ou apenas uma opinião (David Hume), ou é um pouco de cada, mas colorido pelo estado mental imediato do observador (Immanuel Kant)?

    Vou me utilizar de uma história anônima que recebi recentemente mas que descobri incorreta e incompleta. A história que escrevo abaixo é a que consegui verificar com dados e referências.

    Imagine a cena: um homem postou-se em uma entrada da estação ‘L’Enfant Plaza’ do metrô de Washington/EUA e começou a tocar violino, era 07:51 de uma manhã de Janeiro de 2007– não tão fria. Uma região no coração do stablishment do governo norte-americano.

    Ele tocou seis peças fundamentais da música mundial (duas de Bach – uma delas Chaconne, uma de Massenet, uma de Schubert, uma de Ponce, e a última Mendelssohn) durante 43 minutos. Durante esse tempo, já que era hora de pico, 1.097 pessoas atravessaram a estação, a sua maioria – pelo horário, a caminho do trabalho.

    Três minutos e sessenta e três pessoas se passaram, até que um homem de meia idade notou o músico, não parou o passo, mas acompanhou com o olhar ao passar por ele.

    Meio minuto depois, o violinista recebeu o seu primeiro dólar, uma senhora atirou o dinheiro sem sequer parar e continuou o seu caminho.

    Alguns minutos depois, alguém se encostou à parede para o ouvir – por três minutos. Depois olhou para o relógio e retomou a marcha, estava a caminho do trabalho.

    Logo após, um menino de 3 anos teve sua atenção. A mãe trazia-o pela mão, apressada, a criança ia parando para olhar para o violinista quando a mãe o puxou – como toda mãe apressada o faz – e o menino continuou a andar, virando a cabeça algumas vezes para ver o violinista. Esta ação foi repetida por várias outras crianças. Todos os pais, sem exceção, mantiveram as crianças prosseguindo.

    Nos quase 45 minutos em que o músico tocou, somente sete pessoas pararam por algum tempo. Um deles, por cerca de nove minutos. Vinte e sete pessoas deram-lhe dinheiro, mas todos continuaram em seus passos normais. Ele recolheu 32 dólares. Quando ele parou de tocar e o silêncio tomou conta do lugar, apenas uma mulher tinha se dado conta quem estava ali e foi ao seu encontro dizer olá. Ninguém aplaudiu, nem houve qualquer tipo de reconhecimento.

    Ninguém sabia que este violinista era Joshua Bell, um dos mais talentosos músicos do mundo. Ele tocou algumas das peças mais elaboradas já escritas em um violino produzido em 1713 por Antonio Stradivari de valor calculado de 4 milhões de dólares. Para o público, ele toca sempre neste.

    Três dias antes de tocar no metrô, Joshua Bell esgotou um teatro em Boston, onde cada lugar custou em média 100 dólares. E onde, ao final de cada peça, ele foi bravamente aplaudido pela plateia presente.

    Esta é uma história real, Joshua Bell tocou incógnito na estação de metrô em um evento organizado pelo Washington Post que fazia parte de uma experiência social sobre percepção, gostos e prioridades.

    As questões no experimento eram: em um lugar comum, numa hora inapropriada somos capazes de perceber a beleza? Paramos para apreciá-la? Nós nos apressamos com uma mistura de culpa e irritação, consciente de nossa imprudência, mas irritados com a demanda espontânea de nosso tempo e carteiras? Jogamos um dinheirinho, só para ser condescendente? Nossa decisão muda se ele for ruim? E se ele for realmente bom? Temos tempo para a beleza? Não deveríamos? Qual é a matemática moral do momento?

    Ai vem a questão: se um grande músico toca uma música magistralmente, mas ninguém ouve… Ele foi realmente bom?

    Das propostas acima, proponho irmos com Kant, porque ele obviamente está certo: beleza é um pouco de fato mensurável, um pouco de opinião, mas colorida pelo estado mental imediato do observador.

    Isto nos traz diretamente para o evento com Joshua Bell: após sua apresentação no metrô, sentado em um restaurante de hotel, pegando seu café da manhã, tentando ironicamente descobrir o que diabos havia acontecido em L’Enfant Plaza.

    O texto anônimo coloca que “uma das possíveis conclusões que se podem tirar desta experiência pode ser: se não temos um momento para parar e escutar a um dos melhores músicos do mundo tocar algumas das músicas mais bem escritas do mundo, quantas outras coisas estaremos perdendo?”

    Tornando-se para habilidades, em específico de liderança, uma das mais simples talvez seja estar disponível. Não somente gerenciar, liderar, ‘deixando a porta aberta’. É uma atitude e o corpo fala: do discurso à linguagem corporal. É também uma questão de valores e de gestão do tempo.

     

    Referências:

    Montélo; Treinamento “Processos Organizacionais de Desenvolvimento de Lideranças“; 2020.

    Crispin Sartwell; “Beauty”; Stanford Encyclopedia of Philosophy; publicado originalmente em 04/09/2012 e revisado em 05/10/2016.

    Gene Weingarten: “Setting the record straight on the Joshua Bell experiment”; Washington Post; publicado em 14/10/2014.

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